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A mãe de uma menina de 11 anos, preocupada com o desenvolvimento físico de sua filha adolescente, decidiu procurar um médico. O problema, segundo ela, era que a filha estava desenvolvida demais para a idade. As mamas estavam maiores que as da mãe (que eram consideradas pequenas), ela já tinha cerca de 1,65 m de estatura (estava maior que a mãe), já havia menstruado (ao contrário de muitas de suas colegas de classe). A preocupação da mãe era tanta que, numa conversa com a filha, comentou: "Se suas mamas continuarem crescendo deste jeito, vamos procurar um cirurgião plástico".

Passemos a outro caso. Quando tinha 10 anos de idade, um menino foi levado ao pediatra por sua mãe que estava apavorada, preocupada com o tamanho do pênis dele. Segundo ela, o pênis era pequeno demais, o que, no futuro, a mãe acreditava que traria ao filho graves conseqüências na área sexual. O problema detectado pelo pediatra, foi que a criança obesa não conseguia visualizar direito o tamanho de seu pênis, pois este ficava com a base coberta pelo excesso de gordura da região pubiana. Mas àquela altura o menino, atormentado pelas conclusões equivocadas da mãe, se sentia diferente dos outros e, envergonhado, não conseguia trocar de roupa na frente de nenhum de seus colegas. Negava-se, inclusive, a usar sunga de natação.

Hoje é um homem adulto. Já passou por diversos urologistas e sempre obtém a mesma resposta: "Não há problema algum com seu pênis". Porém, ele não consegue se convencer disto e tem dificuldades de relacionamento. Vive inseguro em relação à reação que as mulheres terão ao ver o seu pênis.

Outro menino com sete anos de idade certo dia se despediu de seu professor. O professor perguntou-lhe se ele estava mudando de escola e por que. A resposta do menino foi uma só: "acontece que amanhã vou fazer uma operação.

O médico vai cortar meu pinto e eu vou virar mulher. E aí você não vai mais gostar de mim". Na verdade, o menino foi submetido a uma cirurgia de fimose, porém, ninguém explicou a ele do que se tratava. Toda a informação que ele teve foi a que conseguiu escutar da conversa entre sua mãe e o médico. E sozinho tirou suas conclusões.

O que estes três casos têm em comum? Não há nada de errado, inclusive é saudável e esperado, o fato dos pais se preocuparem com seus filhos e acompanharem, de perto, o desenvolvimento físico e emocional deles. Qual o problema, então?

Como se não bastassem as dificuldades naturais que todos passam na adolescência (como aprender a lidar com tantas transformações que ocorrem tão rápido e fora do controle e desejo), alguns ainda têm que digerir a idéia, passada pelos pais, de que tudo aquilo está acontecendo de maneira errada.

No primeiro caso apresentado, além de ter que conviver com a novidade das mamas, é colocada para a menina a possibilidade de cortá-las por estarem fora do padrão. Só que o padrão imposto pela mãe, neste caso, é o padrão da estética, e não da normalidade. O menino obeso tem hoje dificuldades sexuais, porém elas não são fruto do tamanho "físico de seu pênis", como temia a mãe. Seu problema é decorrente do tamanho "psicológico" do órgão.

No caso da fimose, faltou tanto à mãe quanto ao médico, um pouco de sensibilidade para explicar ao menino o que estava acontecendo. Alguns, subestimando a inteligência e a capacidade de compreensão de seus filhos ou pacientes, acham que uma criança não tem condições de entender nada disto, portanto, para que explicar? Além do mais, não se fala "desse" assunto. Sexo em muitos lares, ainda hoje, é tema proibido.

Tendemos a passar para nossos filhos nossos padrões, muitas vezes contaminados por nossas angústias e desejos, mascarados de boa intenção. Na maioria das vezes, os pais educam os filhos tentando acertar, mas mesmo assim erram. Se a nossa preocupação for, acima de tudo, procurar entender o que se passa com nossos filhos, estaremos educando-os para serem felizes com o que são e como são. E é isto é que vale.