Gravidez na adolescência
Segundo Maia Filho (2002), a adolescência pode ser considerada como um fenômeno psicossociocultural, relacionado diretamente às mudanças que ocorrem na puberdade. A puberdade é caracterizada pelo início da maturidade sexual e por importantes manifestações físicas, culturais e de conduta.

Para a Organização Mundial de Saúde, este período da vida vai dos 10 aos 19 anos, podendo ser subdividido em "adolescência precoce" (dos 10 aos 15 anos) e "adolescência tardia" (dos 16 aos 19 anos).

O último censo brasileiro revela que, apesar de todos os programas de prevenção e orientação sobre anticoncepção, ainda se observa um número cada vez maior de adolescentes grávidas, principalmente, aquelas que estão na adolescência precoce, o que compromete as condições sociais e de saúde destas jovens.

Pesquisas mostram que, devido ao amadurecimento prematuro do eixo hipotálamo-hipofisário ovariano (1), principalmente indivíduos que vivem em países de clima quente, a menarca (2) tem ocorrido muito cedo. Conseqüentemente, o início da vida sexual também se dá em tenra idade.

As justificativas das jovens brasileiras para a não utilização adequada da anticoncepção são bastante variadas: 20% relatam que não esperavam ficar grávidas; 17,5% afirmam que queriam engravidar; 12% justificam que o método contraceptivo foi usado, mas falhou; 9% alegam que algo errado aconteceu com elas e, por isso, engravidaram; outros 9% afirmam que desconheciam o assunto.

Outra situação preocupante é o acompanhamento pré-natal destas jovens, após ser diagnosticada a gravidez. Apesar do acesso facilitado aos Programas de Assistência pré-natal do Governo, 22% das adolescentes precoces grávidas ficam sem pré-natal e 50% das mesmas fazem pré-natal inadequado (menos de quatro consultas). Isto favorece uma série de ocorrências clínicas e aumenta o risco obstétrico das meninas.

O fato de ficar grávida tão cedo, de maneira "indesejada", deveria servir para futuros cuidados de prevenção. Entretanto, 11,5% dessas jovens repetem a gravidez no primeiro ano após o parto.

Os problemas se agravam com outros fatores concomitantes ao nascimento dos bebês, tais como: abandono escolar, entrada despreparada e obrigatória no mercado de trabalho, desvinculação emocional dos familiares e parceiros, além das intercorrências clínicas e obstétricas.

Apesar destes agravantes sociais, do maior número de problemas clínicos na gestação e do nascimento prematuro dos bebês, o índice de cesáreas entre as adolescentes precoces é menor do que o das gestantes adultas, o que dismitifica o medo dos obstetras no atendimento de trabalho de parto de adolescentes.

Mesmo considerando-se de "alto risco" a gestação de adolescentes precoces (10 a 15 anos), as principais complicações encontradas, estão diretamente relacionadas aos fatores sócio-econômicos, ambientais e de etnia (raça) destas jovens.

Conclui o autor que, mesmo com todo investimento na saúde para prevenção e cuidado destas jovens e com a preocupação dos países de Primeiro e Terceiro Mundo, os resultados estão distantes daquilo que se deseja. Daí a necessidade de que outros setores da sociedade (jurídico, educacional e de promoção social) se unam para melhorar as condições de prevenção e assistência às grávidas adolescentes.

Fonte(s):


•   Revista Médico Repórter - Como eu trato. MAIA FILHO, N. L. Gravidez na adolescência: um assunto de todos os dias. São Paulo (S.P); julho 2002; ano 04; nº 37; p.28-29.