Histórico da AIDS no Brasil: ontem e hoje
O primeiro caso de AIDS registrado no Brasil data de 1980, sendo que o diagnóstico foi retrospectivo. Os primeiros casos registrados foram associados à transmissão sexual entre homossexuais masculinos. Desde então, as infecções têm ocorrido por todas as vias já conhecidas sexual, uso endovenoso de drogas ilícitas, transfusões sangüíneas e pela gravidez. Atualmente, a transmissão do HIV através de relações heterossexuais e homossexuais masculinas compõem a maioria dos casos notificados da doença.

Há uma associação significativa entre uso de drogas por via endovenosa e transmissão heterossexual. Este dado tornou-se evidente a partir da análise de pessoas cuja infecção foi atribuída ao contato heterossexual. 19% dos homens e 35% das mulheres contaminadas por esta via tinham parceiro(a)(s) usuários de drogas por via parenteral. Dos indivíduos infectados em relações heterossexuais, 66% dos homens e 27% das mulheres tinham múltiplas(os) parceiras(os).

A primeira fase da epidemia no Brasil envolveu a transmissão por via sexual, em relações homossexuais masculinas. A segunda fase teve início com a disseminação do vírus através das drogas injetáveis. A fase atual da epidemia da AIDS no Brasil está caracterizada por cinco tendências distintas:

1) Aumento da transmissão por via heterossexual: o primeiro caso registrado de HIV por esta via de transmissão data de 1984. A partir de 1990, começa haver cruzamento de casos com aqueles resultantes de contatos homossexuais e bissexuais. Em 1996, a transmissão por via heterossexual conta com aproximadamente 56% dos casos de AIDS transmitidos sexualmente.

2) Faixa etária jovem: desde o início da epidemia, o principal grupo etário é de indivíduos entre 20 e 49 anos, fato bastante preocupante, uma vez que concentra pessoas economicamente ativas. A média de idade tem caído entre aqueles cujas infecções foram atribuídas às drogas injetáveis e ao contato heterossexual. Homens homossexuais contaminados tendem a ter acima de 30 anos de idade, enquanto aqueles que adquiriram o vírus através de drogas endovenosas apresentam idade inferior a 30 anos.

3) Grande paridade entre os sexos: o primeiro caso registrado no sexo feminino foi em 1983. A razão de casos da doença entre homens e mulheres era de 16:1 em 1986 e agora alcançou 3:1. Em algumas regiões do Brasil, esta razão cai para 2:1.

4) Baixo nível de escolaridade: no começo da epidemia, a maioria dos infectados tinha pelo menos o segundo grau. Em 1996-1997, mais de 60% dos casos registrados eram de pessoas com apenas o primeiro grau de escolaridade. Entre 1993 e 1997, para os analfabetos, havia 1.8 casos em homens para 1 caso em mulheres. O grau de escolaridade de homens e mulheres infectados através de drogas por via endovenosa ou por via heterossexual tende a ser menor do que o de homens homossexuais.

5) Expansão nas áreas rurais: o aspecto mais recente da epidemia da AIDS é a expansão da doença nas áreas rurais. Enquanto em 1987 os casos se limitavam a apenas 708 municípios, hoje há aproximadamente 2.585 municípios com casos registrados da infecção por HIV. A transmissão por transfusão de sangue continua ocorrendo nas áreas rurais.

Estima-se que em torno de 448.000 pessoas, de idades entre 15 e 49 anos, estejam infectadas pelo HIV no Brasil. Um total de 116.386 casos de AIDS foram registrados pelo Ministério da Saúde, desde o início da epidemia.

O período compreendido entre dezembro de 1996 a fevereiro de 1997 registrou aumento no número de casos registrados: 10.000 novos casos comparados aos 5.808 casos, de 25 estados, no trimestre anterior. Este aumento significativo pode ser explicado pelo esforço governamental em diminuir a sub-notificação e pela introdução de novas terapias anti-retrovirais.

No ranking nacional de taxas de incidência em municípios, os quatro primeiros são da região Sul: Itajaí, Balneário de Camburiú, Porto Alegre e Florianópolis. Seguidos por Caçapava (SP), Ribeirão Preto (SP), São José do Rio Preto (SP), São Leopoldo (RS), Cubatão (SP) e Criciúma (SC) (1).

O crescimento da epidemia nestes grupos sócio-demográficos aponta para a necessidade urgente de mais educação, orientação sexual nas escolas, incluindo as escolas de zona rural e campanhas direcionadas aos heterossexuais, que ainda acreditam que a AIDS é doença só de homossexuais e de drogados.

Fonte(s):


•   (1) Jornal do CREMESP Aids cai no país, mas cresce entre heterossexuais. São Paulo (SP); dezembro de 2001. p.11.
•   (2) The Status and Trends of the HIV/AIDS/STD Epidemics in Latin América and the Caribbean. Monitoring the AIDS Pandemic (MAP) Network. http://www.aids.gov.br/udtv/map_map.htm