Quão seguro é o uso da terapia de reposição hormonal
(Baseado no texto de Ricardo Zorzetto)

Nos últimos dois anos, uma série de artigos sobre a terapia de reposição hormonal (TRH) causou alarde mundo afora. Milhões de mulheres de meia-idade sentiram-se desamparadas diante das notícias desfavoráveis que foram divulgadas sobre o uso de hormônios sexuais. Eles são utilizados para restabelecer o equilíbrio alterado pela chegada da menopausa.

De 2002 para cá, jornais, revistas e programas de rádio e televisão difundiram os resultados de dois dos mais importantes estudos sobre a saúde da mulher, dos quais participaram quase 30 mil voluntárias saudáveis. Realizados pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), ambos tiveram que ser interrompidos, antes do tempo previsto. O primeiro contou com 16.608 voluntárias, com idades entre 50 e 79 anos e apontou, por exemplo, risco de desenvolvimento de câncer de mama 26% maior entre as mulheres tratadas com estrogênios e progesterona - os dois tipos de hormônios sexuais que deixam de ser produzidos na menopausa - em comparação com as que receberam um composto inócuo (chamado placebo).

Os dois hormônios são utilizados em conjunto nas mulheres que mantêm o útero, uma vez que a progesterona o protege contra os efeitos danosos do estrógeno. Sem a progesterona, o útero ficaria sujeito a risco maior de câncer. Além de aumentar a vulnerabilidade ao câncer de mama, o uso dos dois hormônios elevou em 40% a chance de acidente vascular cerebral e em um terço o de infartos, não obstante tenha reduzido em 37% a probabilidade de câncer no intestino e em 33% a de fratura no quadril.

Já o segundo estudo que, como o primeiro, integra a Iniciativa pela Saúde das Mulheres (WHI, na sigla em inglês) utilizou apenas o estrogênio isoladamente (em mulheres que retiraram o útero).  Houve aumento de 33% do risco de formação de coágulos em vasos sangüíneos profundos e a conseqüente probabilidade de problemas no coração (infarto), nos pulmões (embolia pulmonar) e no cérebro (acidente vascular cerebral). Por outro lado, o tratamento com estrogênios diminuiu a probabilidade de fraturas decorrentes da osteoporose e não alterou a de desenvolver câncer de mama. Nenhum dos dois tratamentos levou à maior taxa de mortalidade, segundo os coordenadores do WHI, projeto que já acompanhou a saúde de 160 mil mulheres.

Da forma como foram apresentados, os dados assustaram. Mas uma avaliação minuciosa sugere que a reação parece desproporcional à gravidade dos resultados. Os artigos e as notícias destacaram os riscos relativos. "Na área clínica, o mais importante é saber o risco absoluto", comenta o ginecologista Aarão Mendes Pinto Neto, da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. No estudo com estrogênios e progesterona, as mulheres que receberam a terapia hormonal correram um risco 26% maior de desenvolver câncer de mama do que as que tomaram placebo - eis o dado relativo, que indica uma proporção elevada. Em termos absolutos, esse número representa nove casos a mais de câncer de mama. Em um grupo de 10 mil mulheres que receberam o placebo, durante um ano, foram detectados 31 casos de câncer e naquelas que receberam os hormônios, no mesmo período, esta taxa foi de 40 casos por 10 mil.

Ambos os experimentos foram planejados, inicialmente, com a finalidade de dimensionar, caso existissem, os benefícios deste tratamento contra as doenças cardiovasculares, uma aplicação bem distinta da indicação principal desta terapia, que é a de abrandar os sintomas da menopausa, tais como "fogachos" (ondas de calor que, várias vezes ao dia, surgem como uma pressão na cabeça e descem pelo rosto até o peito); insônia e irritabilidade que podem, inclusive, contribui para o surgimento de depressão.

Na realidade, a equipe que coordenou os estudos apresentou uma opinião bastante semelhante à recomendação da agência norte-americana de controle de medicamentos (FDA, na sigla em inglês). Os hormônios devem ser utilizados apenas para aliviar os sintomas da menopausa, na dosagem mais baixa e pelo menor tempo possível. Os riscos proporcionados por esse tratamento com o objetivo de prevenir doenças crônicas, como a osteoporose, são pequenos. Mas também o são os benefícios, que não justificam sua indicação para mulheres saudáveis que não apresentam fogachos, por exemplo. Jacques Rossouw, diretor do WHI recomendou que ¿as mulheres com útero que atualmente tomam estrogênios e progesterona precisam conversar com seus médicos para avaliar se devem continuar o tratamento¿. Acrescenta que ¿se estiverem consumindo essa combinação de hormônios por período curto para aliviar os sintomas (da menopausa), pode ser sensato continuar a terapia, desde que os benefícios superem os riscos¿. À época, também aconselhou que houvesse reavaliação do uso prolongado desses hormônios com o objetivo único de prevenir doenças.

Alguns pontos questionáveis desses dois estudos citados também merecem ser comentados. Dois terços das voluntárias tinham mais de 60 anos, idade considerada avançada. Em geral, as mulheres começam a realizar TRH com 50 anos, quando se iniciam os sintomas da menopausa. Nesta faixa etária, os problemas cardiovasculares são menores. Além disso, 35% delas eram obesas, fator que eleva ainda mais a chance para doenças cardíacas e vasculares. Nestes estudos, os pesquisadores utilizaram doses fixas e um tanto elevadas dos hormônios. Soma-se a isto que os hormônios utilizados nos estudos foram de origem animal, extraído de éguas. De acordo com os especialistas, podem funcionar no corpo humano de maneira diferente dos estrogênios femininos.

Assim, serão necessários novos estudos mais apropriados para avaliar a TRH bem como novas alternativas de tratamento. A conduta mais sensata é discutir com o médico a necessidade, os objetivos, a duração, os custos e os  benefícios deste tipo de tratamento.

Fonte(s):


•   1. Revista Pesquisa FAPESP. Terapia hormonal mostra-se segura para tratar apenas as alterações típicas da menopausa por períodos curtos. Ricardo Zorzetto. São Paulo (SP); julho/2004. p. 40-45.
•   2. Equipe do site.