Encontros e desencontros hormonais
Há épocas em que Marina percebe sua pele e seu cabelo mais macios do que em outras. Ela se sente sexy e atraente, mais do que muitas modelos e atrizes famosas e, principalmente, quer mais sexo.

 Naquela semana, especificamente, ela estava ansiando por uma noite inesquecível com Roberto, seu marido. Em seu trabalho tudo estava tranqüilo, sem pressões e em uma revista feminina ela tinha lido uma reportagem muito estimulante: "Como deixar seu parceiro sexualmente enlouquecido", com dicas de roupas, acessórios, preparação de ambientes e receitas de comidas e bebidas afrodisíacas.

 Imaginando e projetando a noite, escolheu o dia da semana em que Roberto não tinha curso, nem futebol com os amigos. Comprou uma roupa bem provocante, velas perfumadas, flores, óleo de massagem e ingredientes para o jantar. O dia finalmente chegou, tudo estava pronto e ela excitada aguardava Roberto.

 Roberto, por sua vez, estava parado no trânsito, mau-humorado. Aquele tinha sido um dia em que ele não deveria ter saído da cama. Tudo deu errado. Estava só precisando encontrar sua esposa com uma comidinha bem quentinha e, se pudesse, mastigando o jantar por ele. Finalmente chegou.

 Abriu a porta de casa e, surpresa! Suas narinas foram impregnadas por aquele perfume inebriante. Quando seus olhos se acostumaram à penumbra e ao crepitar do fogo das velas, vislumbrou sua esposa muito sensual. Ele já sabia o que estava por acontecer. Explicou que estava muito cansado, que naquele dia não ia ser "legal". E ela, provocante, insistindo. Como resistir ao perfume e àquele corpo se esfregando nele? Armando-se de todas as forças, tomou um banho e acabou tendo uma noite maravilhosa que compensou o dia terrível.

 Alguns dias mais tarde, desejando a repetição daquela noite incrível, Roberto telefonou para Marina, pedindo um jantar especial. Saiu do trabalho todo animado, passou em uma floricultura e comprou um ramalhete de flores vermelhas. Depois fez uma extravagância, adquirindo um vinho muito especial. Afinal, a ocasião merecia! Chegou em casa já todo excitado. A casa estava como sempre, as luzes acesas, nada de perfume e velas e o jantar especial solicitado era apenas seu prato favorito. Marina, muito solícita, arrancou a pasta de suas mãos, ajudou-o a tirar o paletó. Preparou um banho de espuma para relaxá-lo. Durante o jantar, sua maior preocupação era que ele se alimentasse bem. Depois pediu para que ele se deitasse em seu colo e, enquanto ambos assistiam à televisão, ela ficou fazendo "cafuné" na cabeça dele. Era exatamente isso que ele precisava, mas no "outro" dia. Com todo esse estímulo, sua vontade "murchou".

 Escolhi essa estória para exemplificar o que chamo de "desencontro hormonal".

 O ciclo menstrual varia de 21 a 35 dias, com média de 28. Considerando esse valor médio, nos 14 dias, após o primeiro dia de menstruação, o organismo da mulher libera um hormônio chamado estrogênio. No final desse período, a produção diminui, o óvulo está maduro, pronto para ser fecundado, momento em que a mulher está em seu período fértil, e o hormônio com aumento de produção é a progesterona que prepara o ambiente uterino para receber o ovo (quando há fecundação). Se a mulher engravidou, esse hormônio continua sendo liberado durante toda a gestação, preparando-a para a maternidade. Caso contrário, ocorre a menstruação (2,3).

 No primeiro período do ciclo, a mulher se sente e tem o impulso para agir como Marina do começo da estória: mais para a sedução. No segundo, mais para a "mãezona".

 Até agora não existem trabalhos científicos que realmente comprovem isso. No entanto, na prática clínica, os ginecologistas observam, em suas pacientes, essa flutuação de comportamento causada pelos hormônios.

 De minha parte, quando trato de mulheres com falta de desejo, prazer e orgasmo, no momento mais propício do processo terapêutico, explico os efeitos dos hormônios durante o ciclo menstrual. Algumas confirmam ter se percebido assim, mas que não haviam ligado o fato ao ciclo menstrual. Para quem não faz a mais remota idéia, eu oriento para que se perceba e sinta e quando,  na terapia, elas não trazem ter se aventurado à relação sexual no primeiro período do ciclo, eu peço para que o façam e se observem.

 Os resultados têm sido bastante satisfatórios, porque aproveitar o momento em que a mulher está mais favorável para o sexo mostra ser mais um fator que ajuda a vencer a dificuldade sexual.

 Isso não quer dizer que quando uma mulher esteja na fase progesterônica ela não deva ter relações sexuais. É importante lembrar que cada pessoa é um ser único, com seus desejos e preferências particulares.

 Em contrapartida, por volta da 12ª semana de gestação, no embrião masculino a produção de testosterona aumenta para a formação de seus órgãos genitais. Novo aumento ocorre no nascimento e depois da puberdade, para propiciar o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários do menino, levando à virilização do corpo infantil. E sua produção permanecerá estável, até aproximadamente 50, 60 anos quando começará a diminuir gradualmente (1,5). A função da testosterona é manter as características sexuais masculinas e a libido do homem (4). Assim, no homem, não há eventos hormonais tão marcantes como na mulher.

 Uma curiosidade hormonal: Há cerca de três anos, eu acompanhei um curso de culinária japonesa. Quando chegou no capítulo do sushi e sashimi (pratos elaborados com peixe crú), o professor enfatizou que "as mulheres NÃO DEVERIAM preparar o peixe, porque durante o mês a temperatura e a química das mãos mudavam muito e isso alterava as propriedades do peixe, enquanto nas mãos do homem permaneciam sempre constantes, inalteradas".

 Fonte (s):

 

  • Bertero, E. Andropausa mitos e verdades. In: Glina, S.; Puech-Leão, P.; Reis, J.M.S.M.; Pagani, E. (eds.) Disfunção sexual masculina. São Paulo, Instituto H. Ellis, 2002. p.93-99.
  • Coleta, H.E.; Freitas, F. Ciclo menstrual normal. In: Freitas, F.; Menke, C.H.; Rivoire, W.; Passos, E.P. (eds.) Rotinas em ginecologia. 4ª ed. Porto Alegre, 2001, 380-387.
  • Halbe, H.W.; Bedone, A.J.; Cunha, D.C. Controle neuroendócrino do ciclo menstrual. In: Halbe, H.W. (ed.) Tratado de ginecologia. 2ª ed. São Paulo, Roca, 1994. v.1, p. 292-304.
  • Sociedade Brasileira de Urologia. I Consenso Brasileiro de Disfunção Erétil. São Paulo, BG Cultural, 1998. p. 27-31.
  • Walsh, P.C.; Retik, A.B.; Vaughan Jr., E.D.; Wein, A.J. Campbell¿s urology. 7ª ed. Filadélfia, Saunders, 1998. v.2, p. 1257-1261.