Cara a cara com o espelho
Nossa cultura nos passa a idéia de que o homem não tem problemas, nem dúvidas quando o assunto é sexo. A ele é dada a liberdade sexual e, portanto, é esperado que perca a virgindade na adolescência e colecione "troféus" por seu desempenho na cama. A mulher, por sua vez, recebe uma educação mais repressora (ainda hoje) apesar de todos os avanços. É comum percebermos que adultos, tanto homens como mulheres, desconhecem seu próprio corpo, principalmente os genitais.

É sabido que os homens se masturbam com mais freqüência e facilidade que as mulheres, por questões culturais já bastante debatidas. Porém, quando eles são convidados a parar na frente de um espelho e se observar de roupa, sem roupa, analisar as marcas que têm na pele, as gordurinhas, seus pêlos, suas dobras, as expressões do rosto, perceber seu cheiro, o sabor de sua pele, o som que emitem através da respiração e da voz; quando orientados a tomar um banho prolongado para que possam tocar cada centímetro de seu corpo, percebe-se que a grande maioria dos homens se sente incomodada ou inicialmente incapacitada de fazê-lo.

Quando indagados se costumam se olhar no espelho, a resposta é básica: sim, ao fazer a barba, ao se vestir, olham o conjunto para ver se está tudo bem, combinando. A resposta vem acompanhada de uma observação carregada de ironia e preconceito: "Homem que gasta muito tempo se olhando é gay". Já as mulheres têm o hábito de se observar um pouco mais. Porém, com o objetivo maior de se arrumar o melhor possível para sair.

Se você fosse convidado a identificar partes de seu corpo em fotografias misturadas a outras fotos que retratem partes do corpo de outras pessoas (de sua raça e cor) você conseguiria se achar facilmente? A grande maioria das mulheres e dos homens responde que não. Não conhecemos nosso corpo.

Muitas pessoas, quando experimentam exercícios de exploração do próprio corpo, se olhando no espelho ou se tocando, não conseguem passar de poucos minutos, sentem-se ansiosas, angustiadas, com vontade de dar logo um fim a tudo aquilo, sentem vergonha de si mesmos e até se desaprovam.

Lembram do tempo de criança, quando os pais as proibiam de andar nus pela casa, argumentando que quem anda assim é "sem vergonha e oferecido". "Meus pais nunca me permitiram observar o corpo dos outros, de minhas amiguinhas e amiguinhos, como se olhar para eles fosse um grande pecado. Aprendi, então, que já que não podia olhar o outro, também não devia me olhar", comentou certa vez uma mulher de 45 anos.

"Na adolescência adorava pentear meus cabelos. Gastava um tempão tratando deles. Eles eram bem lisos, pretos e brilhavam muito. Minha mãe me proibiu, disse que eu ia virar mulherzina. Passei a fazer escondido até que ela conseguiu me convencer do perigo que eu corria. Hoje só olho para um espelho retrovisor, quando estou dirigindo, até porque não tem como evitar", conta um senhor de 66 anos de idade.

A questão que se coloca é a seguinte: hoje, com toda a informação a que crianças, adolescentes e adultos têm acesso, além da educação sexual nas escolas e da grande quantidade de palestras sobre o assunto, poderíamos estar caminhando mais rapidamente para uma mudança deste quadro. Mas, mesmo as informações mais claras só conseguem atingir de fato a conduta de uma pessoa na medida em que ela própria se dá conta do que significam para sua vida, ou seja, na medida em que ela descobre a importância do auto-conhecimento físico e psicológico para o exercício prazeroso da sexualidade.